Textos

Nós

Nós

“Desinteressar-se equivaleria a romper os laços que o unem à coletividade. Seria deixar de querê-la e, assim, contradizer-se.”

(Émile Durkheim)

 

Estados afetivos são lampejos de interesse pela vida. Interesses para sempre ameaçados por ciúmes, ódios, egoísmos. Mas a emoção é uma reação, controlada ou irascível, quando resolvemos responder aos fatos, à arte, às pessoas, aos entes. O que nos liga em coletividade? O que nos faz amar?

O infinito, obviamente, ainda está por vir. Não há amor incondicional, perceberá a criança artificial do filme de Spielberg. A mãe (sereia, loba, medeia, pietá) passará a vida negando e informando o infortúnio ao filho desprovido, em mensagens subliminares, em cobranças enternecidas. Todo filho é prematuro. E assim a mãe o expele nu, entrega-o sem entregá-lo por completo à vida. Como fazer? O que articula esta relação são cordões que podem virar forcas. Adoecem-se os sentimentos. E o corpo reclama. Mas foram as mães que nos estimularam ao banho, ao asseio com línguas, mangueiras de quintal, ou dentro de bacias, banheiras. E foram as mesmas que se esqueceram de nos dizer que aquilo podia gerar volições, interditas muitas vezes. Enquanto isso, com o passar dos anos, a própria criança resolve, pela subversão do desejo, fechar as portas, abrindo o corpo mal enxuto em camadas gozosas, inundando a sala, os quartos, a moral, os costumes com o simples jorro da bica do banheiro. Um sintomático esquecimento. Uma feroz negação. Como se fácil fosse, ela gritará: “Não deixe a bica aberta! Não ande molhado pela sala!”

Ao retratar os laços, os nós, Claudia Tavares faz o amor transformar-se em lenda e o transcende, o esfria para instantes de observação e depois. Como numa alteração mecânica de temperatura o esquenta. Lá está o lado avesso das orelhas ao qual só chegam os mais íntimos. Assim faz com a transa do filme de Almodóvar, desacelera-a, sem interrompê-la (é impossível pausá-la, não é isso que desejamos, queremos ver o final… mas o filme parece não ter fim). Tudo encenado na exposição, repito, na “exposição” dos corpos de atores e parentes. “Um mundo imaginário se insere entre as mímicas e os movimentos do corpo, o qual torna a vida social mais espessa, da mesma forma que essa dimensão enriquece o palco” – afirma David Le Breton.

Tornar espesso o instante, ainda que estejamos falando de balões de ar, de longos anos ou de passagens abruptas. Na série de fotografias, Tavares convida casais ao jogo de resinar com cola a palma das mãos. A fotografia eterniza as mãos, e a vida ilude os casais, já que a eternidade estará sempre por um triz.

Paixões ordinárias. Os poetas foram justamente banidos, “culpados de atiçar emoções prejudiciais à serenidade racional da cidade”, conclui Le Breton.. Expulsem Claudia Tavares do recinto! Vejam o que aconteceu por um minuto no relógio da irracionalidade entre o casal shakesperiano. A pergunta do poeta Augusto de Campos permanece como enigma: “O amor que a mim comove é lenda?” É lenda!, respondo, com exclamação, e finalizo a reflexão, roubando da insanidade do poeta uma frase de estupefata transcendência: A própria lenda é lenda. Além da.

Marcelo Campos

Crítico de arte e Curador

Setembro de 2011

 

 

 

Voltar