Textos

Preto Branco

Veladuras e revelações

Luiza Interlenghi


A luz rompe o silêncio do invisível – desvenda ausências no contorno do arvoredo, recorta geografias nas camadas de tinta da parede, acolhe o movimento dos pássaros e a inércia sanguínea de carcaças sem vida. Em Preto, branco – um percurso fotográfico de duplo acesso –, a fotografia abre caminho para o imaterial. Sob o domínio do preto, Mônica Mansur revisita certos enigmas da ausência. Nas intensidades do branco, Claudia Tavares demarca a transitoriedade no luminoso. No encontro das páginas de sentido contraposto, a experiência do sublime – que permeia ambas as séries fotográficas – cria um inesperado horizonte.

No céu em contraluz, a luminosidade do dia leva a uma cegueira, paradoxalmente reveladora – na leveza dos pássaros encontra caligrafias transitórias. Nessas escrituras voláteis, o enquadramento fotográfico de Tavares, quer transpor o documental, decifrar o próprio desafio vital do vôo, a coerência das migrações, forças que o olhar, apenas, não poderia alcançar. Reconsiderando a luminosidade como véu que tanto ilumina como apaga as escrituras do tempo na construção prestes a desaparecer, Tavares captura as ondulações da monumental tela protetora como se fossem pinceladas intensas e invasivas lançadas na sombria arquitetura. Em Manta Branca, costuras, dobras e amarrações regem o encontro entre o desabitado e a intensidade vital que a luz do dia vem trazendo. Disseminada na trama da manta branca, leva a que ruínas pulsem e respirem, mesmo depois da queda.

Algo espera para ser revelado nas discretas irregularidades que vivem na superfície das paredes. O ornamento de andorinhas simula o vôo que também a fotografia dessas pinturas quer perpetuar, apontando tanto o acúmulo como a migração de camadas em torno do que acreditamos ser o “real”. Em Despintura, quadro a quadro, essas camadas vão sendo escavadas por Tavares que se deixa capturar na imagem, em busca de mundos imaginários, porém densos, essenciais, guardados nas paredes de sua própria casa. Enquanto remove com a espátula a tinta ressecada, demonstra a formação da paisagem ao avesso. Entre realidade e ficção se interpõem  territórios, cartografias e afins delimitados por sutis acidentes do branco sobre branco que o ato fotográfico adensa e reconfigura. Mas a neblina em suspensão (etérea veladura) vai esmaecendo a presença dos objetos comuns, aproximando-os (e também a fotografia) da ficção, de um tempo apenas anunciado. Na transição e no confronto entre claro e escuro, branco e preto, Tavares e Mansur evocam o sublime, exploram a paisagem como experiência de distanciamento da evidência da fotografia.

Mansur captura, com câmera pinhole, enquadramentos deslocados da mesma vereda. Simula, com a apresentação simultânea, a imagem estereoscópica e “realiza” em seu difuso abandono considerações sobre o sublime. Em Horizontes lineares – Retorno a edição digital rebate o céu como espelho d´água, ambos imateriais. A remontagem da série fotográfica na página traça um horizonte a partir do qual reverbera o sublime que o declínio do dia prenuncia em O céu pode esperar – Pretérito passado. Nestas imagens, o brilho lunar deixa seu rastro no negativo, configurando um percurso inesperadamente irregular, próximo da imprevisibilidade das nuvens que filtram a última luminosidade do poente. No instante em que observamos diretamente o céu, o horizonte, essa linha que nos assegura a inclusão em um mundo, se ausenta. Mas a consciência dos limites é reintroduzida por Mansur com a montagem fotográfica que recorta um tempo futuro no céu latente.

Enquadramentos similares da mesma ondulação das montanhas, em tempo muito próximo, desdobram um estendido encontro entre céu e terra. Por meio da construção imaginária de uma geografia inabitada Paisagem descontínua remonta à redundância da imagem fotográfica em relação a seu referente. Entre o próximo e o distante, sombra e luz, paisagens são construídas. Em Esquecimento, linhas em contraluz traçam direções que antecipam uma visão através das múltiplas janelas. Porém os sedimentos sobre as vidraças atrasam o encontro com o outro lado, apenas entrevisto através de vãos. No encadeamento das páginas de Preto essa grade desafiada pelo tempo marca a passagem do sublime para o trágico. A sanguínea Suíte holandesa, homenagem a Rembrandt, investiga o lastro sombrio do efêmero: a finitude contra a qual a dimensão estética quer se rebelar. Sabemos que a fotografia é um objeto entre tantos outros que colecionamos: esculturas, relíquias, pinturas, naturezas mortas. Em Cópia original – Deuses vencidos, Mansur desperta a temporalidade perdida do retrato. Porém, ao adotar o branco da estatuária como substituto da carne (o original da cópia), reconsidera o discutido real da fotografia diante do inanimado. Trilhas de abertas em Branco entrecruzam as incursões em profundidade de Preto. Os dois percursos aqui justapostos investigam poéticas da ausência e da distância. Rondam certos limiares da condição humana como se percorressem a borda de uma cratera na qual não se pode penetrar.

 

 

 

 

 

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