Textos

Vestida de Infância – ensaios sobre a imponderabilidade

É possível vislumbrar a presença do corpo nu frente à tentativa improvável de cobrir-se com pequenos vestidos, unidos através do encontro insólito de casas e botões. A soma dessas pequenas partes, a formação de uma estrutura maleável e heterogênea, certamente não concebe um todo capaz de abarcar a dimensão geral do corpo. Parte desse organismo fluido, transitório, quase precário, cai por terra frente tal impossibilidade. A imagem registra o encontro desses dois corpos que de algum modo se fundiram, mas não completamente. A presença de motivos florais na superfície desses alvos tecidos, arrematados com delicadas rendas, contrasta com a pequena tatuagem, quase imperceptível, e as unhas pintadas de vermelho na mão que se apoia no chão. Bordados do tecido, marcas da pele: insígnias do corpo. Vestida de Infância, título da obra, assim como da exposição individual de Claudia Tavares, é a porta de entrada para um conjunto de imagens que norteiam essa busca do indivíduo em direção ao reencontro com traços de sua infância.

Freud uma vez afirmou: “A criança é o pai do adulto”. Quando Claudia foi presenteada por sua mãe com um conjunto de vestidos que ela e suas irmãs usaram em tenra idade, talvez a sensação tenha sido aquela que todos temos quando nos deparamos com fotografias de nossos primeiros anos de vida. Esses vestidos constituíam-se “traços” do real, índices de alguém que a artista um dia foi – por isso guardam uma relação íntima com o “isso foi” que Barthes destacou ao tratar da natureza da fotografia –, mas ao mesmo tempo representam um Outro, uma imagem quase irreconhecível de nós mesmos, um “eu-outro”, que contém apenas em latência aquilo que nos tornamos. Daí a dificuldade de identificação plena, uma vez que toda criança é apenas um adulto em potencial. No entanto, segundo Freud, é justamente nas vivências dos primeiros anos de vida que se formam as bases psíquicas e emocionais do sujeito, o que não é desprezível: na leveza da infância encontra-se a complexidade existencial da vida adulta; no peso não revelado das primeiras experiências, as orientações de muitas de nossas escolhas.

Claudia Tavares não fala do peso da infância, mas sim de sua imponderabilidade, daquilo que não se revela na superfície dos tecidos, das peles e das imagens. Essa imponderabilidade está presente nos trabalhos expostos e em seus processos. Não se trata de um conjunto de meras imagens fotográficas, mas de ações encenadas para a câmera. Não o registro de performances, mas atos performativos que constituem cenas fotografáveis. Estão entre uma coisa e outra. Não representam apenas o “instante decisivo”, mas contêm um “antes” e pressupõe um “depois”. Apresentam tempo em latência e às vezes tempo em duração. Trabalhos como Casas para Botões, Laços e Tramas e Veste Reveste II, por exemplo, são concebidos mediante a opção consciente pela imagem em movimento, temporalizando literalmente essa dimensão contida em cada quadro (frame ou fotografia). O tempo dessas imagens sobrepõe-se ao tempo subjetivo da vida, aquele identificável no reencontro da artista adulta com sua infância (vivida, lembrada ou mesmo imaginada), a infância que viveu e aquela que ainda se faz presente em seus sonhos.

Relacionado diretamente com a imagem Vestida de Infância, o vídeo Casas para Botões, Laços e Tramas refere-se ao encontro da pele da artista, suas mãos, com a superfície desses tecidos, num contínuo ato de abotoar e desabotoar, conectando e desconectando um vestido ao outro. Há nesse processo intermitente algo da ação mítica de Penélope – ato aparentemente despropositado –, que fia e desfia o tempo, justamente para o tempo (da infância) não se esvair por entre seus dedos. Des-Casados, por sua vez, apresenta a própria materialidade desses vestidos, meio termo entre objeto e imagem. Decorrentes da união de duas peças distintas, cada proposta da série nasce de uma unidade aparente, porém conflitante, uma vez que suas formas, texturas e bordados não se deixam unificar completamente numa visualidade homogênea. Assim, a soma das partes não constitui o todo, mas reforça sua falta. Claudia Tavares enfrenta nesses trabalhos os traços dessas vestimentas, desde sua modelagem, seu corte e seus dispositivos de abotoadura, passando por seus bordados e rendas, signos indeléveis da infância.

Em outro conjunto de trabalhos que constituem a mostra, a artista afasta-se da materialidade dos vestidos, embora mantenha uma relação íntima com as peças que deram origem à investigação poética. Em Avesso, Veste Reveste I e Veste Reveste II há a predominância do elemento floral proveniente do bordado de um dos vestidos, constituindo-se agora como estampa, padrão decorativo independente. Assim como o bordado marca a superfície do tecido, acrescentando novos sentidos para o mesmo, esses padrões, transformados em tatuagem, gravam a superfície da pele e reforçam a percepção de que marcas visíveis também são traços daquilo que é invisível aos olhos. Nem tudo na infância se dá a apreender no corpo adulto. Des-Bordado e Traço Retraço, que se relacionam a esse grupo de trabalhos, por sua vez, representam ou o processo de apagamento dessa marca, reforçando o modo como a memória também seleciona certas recordações, ao mesmo tempo em que outras passam a ser esquecidas, ou insinuam a passagem sutil dessas estampas entre corpo e ambiente, espacializando literalmente a imagem. Aqui torna-se evidente, por sua vez, a infância que se vai, que se dilui em meio ao acúmulo de experiências da fase adulta.

No (eterno) retorno das lembranças, a artista viu-se diante de um índice de certo momento de sua vida – a infância –, elaborando novas experiências reais e ficcionais, a partir de seu reencontro com o conjunto de vestidos. Há algo de profundo nesse gesto de mergulho no tempo, que é também um mergulho na dimensão inconsciente de seu ser; como há igualmente uma natureza lúdica nesse encontro emocional, e por que não dizer festivo, de Claudia Tavares com o presente de sua mãe. Não há peso capaz de promover tal mergulho às profundezas originárias do sujeito. Afinal de contas, já disse uma vez alguém, a infância é leve!

 

Ivair Reinaldim

Setembro de 2014

* Este texto é fruto da relação direta com os trabalhos de Claudia Tavares, mas também de uma série de encontros regulares com a artista, acompanhando seu processo, bem como as questões referentes à investigação poética proposta nesta exposição. Ao mesmo tempo, é devedor dos estimulantes diálogos com Ana Beatriz Vieira, futura psicóloga e psicanalista, sem os quais certamente muitas das relações aqui propostas não seriam possíveis.

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